17 de nov de 2016

Cobra [ Cinema / HQ ] e um poucos acerca dos quadrinhos nacionais de terror [ Momento Nostalgia ]


Você é uma doença.
(Cobretti, Marion - 1986)

Comentei o trabalho de Watson Portela aqui há quase cinco anos, quando recomendei a leitura de sua série Paralela(s). Leio muito HQ nacional das antigas. É difícil encontrar revistas em bom estado em sebos, ainda mais a bons preços. Títulos como Calafrio e Spektro, por exemplo, em estado regular, são vendidos por mais de R$ 50,00 em sebos e em vendedores individuais. Se estão caros ou não, prefiro não comentar tanto. Afinal: cada um vende pelo preço que quiser; e não posso ser hipócrita, pois tenho carinho pela minha coleção e a valorizo. Apenas faço a opção por não comprar e já li toda a Calafrio, por exemplo, de graça em scans de ótima qualidade obtidos em sites como o QuadriKomics e QuadriBrasil. Foi neste último, aliás, que baixei a curiosa Cobra, adaptação tosca por Watson do filme homônimo estrelado por um Stallone quando era um ótimo ator (sim, eu adorava o cara). Só que essa HQ ficou bastante tempo no HD e nunca a li, até ontem. E, cara, que momento nostálgico. Como foi bom relembrar aquela infância onde queríamos ser como os caras justos e turrões do cinema, onde bandido bom era bandido morto e não havia lugar para o vitimismo barato nem para a massa de pizza livre de ovos e lactose. Para completar o momento, faltou apenas a edição ser física, com cheiro de papel jornal velho. Mas valeu a pena. Bendita seja a Grande Rede que nos proporciona ter acesso fácil a materiais como esse, praticamente impossíveis de ser adquiridos hoje em dia. Para quem quiser ler o gibi, basta acessar este link. A HQ é uma apoteose do mau gosto, com todos os elementos mais clichês e típicos da produção nacional em sua fase áurea. Diversão garantida por, talvez, dez minutos de leitura.


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A espetacular Brigitte Nielsen em cena do filme.
Para quem desconhece o filme, basicamente se trata da trama onde um exército secreto de psicopatas planeja implantar seu admirável mundo novo por meio de sucessivos atos de violência urbana, como roubos, assassinatos cruéis de mulheres, abusos sexuais inclusive de criança entre outras condutas típicas de revolucionários. Os "ativistas" da produção, contudo, realmente têm sangue nos olhos e levam a cabo seus desígnios. Eles apenas não esperavam topar com o agente Marion Cobretti (vulgo "Cobra"), o clichê macho alfa roliudiano que, se antes abundava nas telonas, hoje é praticamente proibido de ser retratado. O roteiro foi elaborado sobre Fair Game de Paula Gosling. Em 1995, a mesma novela ganhou outra adaptação para o cinema (Atração Explosiva, no Brasil), com  Cindy Crawford e William Baldwin nos papéis principais. Na adaptação de 1986, a belíssima dama indefesa ficou com Brigitte Nielsen, ex-esposa de Sylvester Stallone, com quem já havia atuado em Rocky IV. É um bom filme; mexeu com a cabeça da molecada de minha geração. Ação comum da década de '80, com homens protetores, mulheres gentis e lições de códigos morais. Hoje, seria um péssimo exemplo para as crianças.


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Especialmente no início deste espaço, sempre optei por compartilhar meu gosto por antigas HQs de terror nacionais. Foi neste gênero que tivemos a melhor fase dos quadrinhos nacionais, com milhares de tiragens sendo vendidas nas bancas ou por vale postal e cheque nominal às editoras, pelos Correios. Os sebos de minha cidade viviam atulhados de HQs como Calafrio, Spektro(s) e Mestres do Terror. Mas não montes de revistas parados; era uma movimentação intensa de trocas, compras e vendas, com novidades a cada semana. Tenho, hoje, bastante saudade daqueles sebos. Se pudesse realizar um desejo, seria, com a grana que possuo atualmente, poder visitar espaços iguaizinhos aqueles e comprar tudo o que, à época, sempre quisera.

Na década de '60, houve a efervescência no mercado de quadrinhos de terror e suspense. Editoras afloraram em nossa terrinha e grande nomes surgiram. Dentre a multiplicação de editoras, podemos citar: EBAL, Vecchi, Paladino, D'Arte, Abril Press Editorial, Noblet, Cluq, Catânia, Kultus e IGB. Contudo, na década seguinte, várias fecharam as portas e o mercado passou a se manter aos trancos e barrancos, ainda mais com a inflação cada vez galopante, que às vezes tonava uma publicação deficitária, já que, estando à venda, não cobria mais o custo anterior com sua produção. Nem as tabelas dos jornaleiros (onde checávamos valores e publicações pelo dia, consultando códigos) salvavam por completo uma linha editorial.

Contudo, ainda que em maus momentos, as publicações de terror/horror se mantiveram firmes em '80. E pudemos curtir caras como Mozart Couto, Eugênio Colonesse, Jayme Cortez e Adolfo Zalla em pleno vapor. Para mim, o maior gênio no meio desse caldo artístico sempre foi Flávio Colin; acho-o, aliás, o melhor traço dos quadrinhos do planeta. Passei boa parte do começo de '90 absorvendo histórias que esses caras havia criados anos atrás. Aqui, como mencionei acima, sempre dediquei postagens a recordar algumas dessas publicações. Confiram, por exemplo: a) Saga de Terror, HQ de Jayme Cortez, resenha [ https://goo.gl/5BvGwp ] e arquivo digital [ https://goo.gl/eWYhwd ]; b) Fantasmagoriana & Outros Contos Sombrios, resenhada neste blogue [ https://goo.gl/GZoWFt ] e, para baixar, acesse: https://goo.gl/Ogwc8I; c) Estórias Gerais pela Ed. Nemo, com breve comentários no link https://goo.gl/K2Ncvz e indicação de coletânea digital Flávio Colin em https://goo.gl/JMPkIb; d) Os Grandes Momentos de Mirza, a Mulher-Vampiro, nossa Vampirella resenhada em postagem meio antiga deste espaço [ https://goo.gl/OSakUz ] e com download gratuito [ https://goo.gl/OqN12C ]. Outras postagens podem ser pesquisadas por você, leitor interessando neste nicho profícuo e perdido de nossas prensas.

É interessante destacar que, mesmo naquela época áurea, diversos artistas discutiam a "necessidade" de haver, no Brasil, reserva de mercado para publicações nacionais. Coloquei "necessidade" entre aspas porque esta se limita a eles, certamente. A do leitor sempre é relegada a segundo plano. Costumeiramente sou contrário a essa patuscada e acho o movimento que perdura até hoje por esse "cotão" infantil e emblemático: somos mesmo uma nação de vitimistas chorões. Na época, o elevado nível gráfico e dos roteiros das publicações Warren não estimularam os artistas brazucas a melhorar; pelo contrário, começaram a se unir em busca de proteção estatal contra a "invasão" daqueles trabalhos extremamente sofisticados. Abaixo, transcrevo palavras do próprio Mozart Couto acerca do assunto:
Tô ficando apavorado com as revistas da D'Arte! Você viu o último número de Mestres? Só tem HQ's certinhas, paradinhas e com desenhozinhos bonitinhos (inclusive os nossos), mas nada que dê impacto. Depois de acostumar-se com Kripta, acho que os leitores não vão ter muito saco para continuar aguentando tanto terror clássico (também conhecido como sacal) - jogue essa carta fora (pelo amor de Deus), pois se alguém lê eu perco a boquinha!
A carta acima foi publicada na edição Especial de Terror n.º 01 de 1986, pela editora Press. Conquanto seja fã dos caras e das publicações nacionais do gênero, não posso me eximir de expressar o que penso em relação a essa covardia pátria, decorrente do paternalismo brasileiro e de nosso comodismo em arregaçar as mangas e ir pro pau. Vergonhoso.

Abraços e até a próxima.
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9 de nov de 2016

Trump no coração da América

Stories from a short stree (confira aqui).
Sempre me interessei pelo coração da América, pelas histórias escritas dentro da vida cortada por estradas vicinais em rincões onde se conservam valores como os descritos por Alexis de Tocqueville em suas obras. Foram valores como fé, moral e trabalho árduo que fizeram daquela nação um colosso onde as liberdades do indivíduo ante o poderio do Estado sempre foram efetivamente resguardadas. Certamente, não temos em parte alguma uma democracia perfeita; temos, no máximo, uma democracia de Estado. Mas foi na América onde, no momento, isso ainda encontra a forma mais perfeita. É normal, em solo tupiniquim, não crermos em moral judaico-cristã como balizadora de todos os negócios e da ação humana em geral, tampouco em algo tão vago como meritocracia; mas é por não termos isso em nosso sangue. Esses elementos são tipicamente americanos, onde boicote realmente dá certo e uma empresa pode quebrar por atingir valores tradicionais e onde estudantes podem apostar na vida, largando seus cursos em Havard para empreender, pois há chances de dar certo. Foi a única nação moderna onde, realmente, vimos que apenas o livre mercado proporciona ascensão social e impede a acumulação de riquezas nas mãos dos amigos do Poder.

O caipira americano só quer tocar a vida, dirigir sua picape comprada por um terço do que pagamos no Brasil e abastecê-la com gasolina de excelente qualidade a US$ 0,52 o litro. Quer ter acesso a lazer, saneamento básico e a outras comodidades modernas as quais nem 50% da população brasileira está acostumada. Também não quer abrir mão de seu acesso a armas, tanto para defesa pessoal quanto para se opor ao próprio Governo Federal na hipótese de ilegitimidade. Afinal, também diferente de nós, o americano médio não acredita no Poder Público, tem ojeriza do Estado se intrometendo em seus assuntos íntimos e familiares e está sempre preparado para dar um pé na bunda de oportunistas. O americano médio, vestido com camisa de flanela numa casa sem muros de gramado verde, não aceita o Poder Público lhe dizendo como seus filhos deveriam ser educados, lhe admoestando dentro de seu lar, com o dedão na cara, apontando que especialistas da ONU que nunca tiveram filhos sabem mais sobre crianças do que uma dezena de gerações em sua árvore genealógica.

A classe média americana está sufocada com administrações que empregam a suada grana de seus tributos em lhe esmagar, arrastando-a para a linha de pobreza e ainda fomentando políticas "progressistas" de ocasião, obrigando o trabalhador que ergueu a poderosa economia daquela nação a dividir o banheiro de sua filha com um barbudo de dois metros de altura que acordou se sentindo mulher num determinado dia. Foi essa classe média - tanto a alta quanto a baixa - que apostou na vitória do magnata. Foi um grito contra o establishment político que dedica décadas discutindo pautas globalistas da ONU e promovendo divisão entre classes, sexos e raças, enquanto o cara que destina quase 40% de sua renda para manter os caprichos politiqueiros afunda a cada ano, não conseguindo fechar as contas. O "branco cis hétero patriarcalista cristão conservador" cansou de levar nas costas toda uma nação durante gerações para, agora, ser chamado pelo Governo de culpado por todas as mazelas sociais e ter em sua casa, todos os dias, a cobrança de uma tal dívida histórica. Ele cansou de ter a casa invadida por marginais protegidos pela new left americana, de ser vítima da violência urbana enquanto precisa lutar contra o próprio Estado para poder se defender sozinho já que seus impostos são empregados na única política pública que realmente importa ao Governo democrata: a criação de banheiro unissex nas escolas e universidades. Ah, citei "branco hétero" mais acima ilustrativamente. Contudo, você pode ser gay e negro; mas será transformado em culpado por males históricos e pela própria natureza maléfica humana se defender pautas parcialmente conservadoras. É assim que vemos funcionando.

Deveras, o sistema de eleição "indireta" norte-americano não é perfeito. Contudo, é a maneira como a democracia é exercida por lá. Em vários sistemas eleitorais temos a combinação de representação indireta com forma direta de exercício da soberania popular. No final das contas, nenhum ordenamento constitucional prevê maneira adequada de resolver problemas de escolha e representatividade. É como no Brasil, onde ainda mantemos o sistema proporcional para escolha de certos cargos, mesmo com o voto direto. A sistemática americana, contudo, possui alguns pontos positivos, como evitar que o Executivo federal dê atenção apenas a certos grandes centros urbanos, esquecendo os rincões rurais e Estados economicamente menos expressivos. E, se não mudam isso, problema deles, não é? Reconheço, ainda, que esse aspecto da legislação eleitoral americana impediu que a democrata fosse eleita pelo voto maciço dos "progressistas" dos grandes centros urbanos, organizados em massa para ir às urnas, enquanto pessoas de mais idade e conservadoras optaram por ficar em casa.

Alguns não gostam de Trump porque ele é rico. Ora, Hillary Clinton tinha o apoio das maiores fortunas americanas em sua reeleição. Aliás, a própria família Clinton representa uma das maiores fortunas, se levarmos em conta o prestígio político da Clinton Foundation, transformada em arcabouço financeiro capaz de definir guinadas políticas ao redor do globo, especialmente sobre republiquetas historicamente fodidas. A Open Society, fundações Ford, MacArthur e Rockefeller votam em democratas. Classe média vota em republicano. Nunca a classe média foi tão esmagada quanto em oito anos de Obama. Nunca houve tantos pobres e tantos ricos ainda mais ricos quanto na última década. É o que partidos progressistas fazem de melhor: majoram a população pobre e concentram renda nas mãos dos amigos. Capitalismo de compadrio não é exclusividade brasileira e, no caso dos USA, as maiores fortunas do Planeta têm projetos de hegemonia a longo prazo. Estamos falando de famílias dinásticas que se aliam ao Poder para desfrutar de proteção, com o inchaço do Estado e o protecionismo que isso lhes proporcionará. Pintaram Trump de representante do "capitalismo selvagem" quando quem representa a concentração de renda e poder é a candidata vovó, boazinha, sempre com um discurso politicamente correto em campanha (mesmo que contradiga tudo o que ela falava antes).

"Ah, mas o Trump é maluco!". Não conheço muitos malucos que se tornam bilionários e escapam de bancarrotas com sagacidade. Mas ok. Suponhamos que sim. Então o que dizer da senhora tresloucada que costuma agredir funcionários da Casa Branca e que dá sinais de demência desde que promoveu a ascensão de regimes tirânicos ao redor do globo, como o ISIS, por exemplo? Essa sim seria uma escolha sã?


Você, colega progressista que endossa todas as políticas de engorda do Estado, interferência na vida privada do cidadão, ações públicas que promovem ódio e separação de classes, raças e sexos sob o pretexto de justiçamento social, aceite isso: a maioria pensa diferente. Você, suposto defensor da "tolerância", deveras não acha natural que uma nação erguida sobre valores tradicionais, formada maciçamente por uma classe média branca que rala há gerações para erguer uma economia poderosa queria como Chefe de Estado e de Governo alguém que defende, também, seus interesses, ao invés de querer arruiná-los e cerceá-los em seu maior patrimônio: a liberdade? Será que não cai a ficha? Realmente, você acreditava que o americano que ralou a vida toda para estudar e trabalhar, com casa hipotecada e carro financiado, aceitaria ad eternum os liberais americanos lhe dizendo como educar seus filhos, comportar-se à mesa, pensar, dormir e escovar os dentes, enquanto o ameaçavam todos os dias com o agigantamento do Estado e mais tributos para sustentar a farra? Colega, se você está achando "estranho" Trump eleito, é muita burrice sua. Caia na real. Ponha os pés no chão. Confesso que não esperava ver essa reviravolta para agora, diante do poderio da mídia (maciçamente esquerdista) e da influência de um Governo Federal enorme, como jamais visto na história americana. Contudo, que a grande maioria da população não se via representada, isso sempre foi notório.

Obama quase dobrou o Governo Federal. Durante oito anos, intrometeu-se na educação familiar, impôs a vontade de seu gabinete a milhões de contribuintes, enriqueceu planos de saúde com seu Obama Care, atentou contra a independência de vários Estados-membros, tentou desarmar a população enquanto, na contramão, promovia o aumento da criminalidade e o acirramento de tensões sociais como o Black Lives Matter. Mas é um carinha que sabe ser carismático na frente das câmeras, e isso é o que importa, mesmo que não passe dos slogans vazios de sua campanha e das imagens formuladas por publicitários radical chic como Milton Glaser. Aliás, progressismo vive de slogans (Hope, Yes We Can, Forward etc.). Mas esses slogans não estavam mais proporcionando o estilo de vida americano; pelo contrário: estavam o corroendo.

Os problemas sociais americanos são mais complexos do que supomos. Enquanto aqui se ganha eleição sobre Bolsa Família, lá é um pouco mais diferente; eles têm a perder algo que nunca tivemos e talvez nunca tenhamos: liberdade e possibilidade real e maciça de ascensão social por meio de estudo e trabalho árduo. Quem reelege Dilma e Temer, Renan e Cunha, ex-BBB e Alice Portugal, francamente, não tem cacife para se mostrar surpreso com o resultado quase óbvio das eleições americanas.

Por fim, destaco: os resultados das eleições, lá, não me importam. Já tenho problemas tangíveis no meu cotidiano. Entretanto, só gostaria de tocar neste ponto: não há surpresa quando a maior parte da população se cansa e resolve avocar, novamente, as decisões sobre os rumos de seu país.

Abraços democráticos e até a próxima.
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